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A EMPRESA CHAMA DE CULTURA, MAS MUITAS VEZES É SÓ DESGASTE ORGANIZADO.

  • Foto do escritor: Janaína Vieira Nedochetko
    Janaína Vieira Nedochetko
  • há 6 dias
  • 14 min de leitura

Por trás da cultura: o desgaste invisível que sustenta o trabalho


Há empresas que gostam muito da palavra cultura.

Gostam de repeti-la em apresentações institucionais cuidadosamente editadas, em manuais de conduta impressos em papel couché, em vídeos de integração exibidos em salas de treinamento onde novos trabalhadores são convidados a acreditar que estão ingressando em uma comunidade baseada em pertencimento, propósito e espírito de equipe. Cultura organizacional, cultura de resultados, cultura de excelência, cultura de dono, cultura de performance. A palavra aparece como promessa, como mantra e como explicação universal para tudo aquilo que a empresa espera que seus trabalhadores façam, sintam e aceitem.

Essa insistência quase ritual na palavra cultura não é casual. Ela cumpre uma função estética e política muito precisa: a de produzir a sensação de que o ambiente de trabalho é um espaço civilizado, racional e harmonioso, um espaço onde conflitos seriam exceções pontuais e não estruturas permanentes. Cultura, nesses discursos, não aparece como algo vivo e contraditório, como o resultado concreto das relações entre pessoas reais que trabalham, adoecem, envelhecem e resistem. Cultura aparece como uma superfície lisa, como uma camada de verniz aplicada cuidadosamente sobre aquilo que a empresa prefere que não seja visto.

Tudo parece muito ordenado, muito racional, muito limpo. Como se o trabalho fosse apenas um mecanismo técnico de eficiência onde cada pessoa ocupa um lugar previsível dentro de uma engrenagem que gira sem fricção, sem conflito, sem corpo, sem dor, sem fadiga, sem humilhação. Como se bastasse vestir o uniforme, ajustar o crachá no peito, sorrir com disciplina e repetir os valores corporativos para que desaparecesse, sob o brilho controlado da linguagem institucional, a matéria real do trabalho: gente exausta, gente adoecida, gente com medo, gente engolindo em seco para não perder o salário que sustenta a vida no fim do mês.

Essa tentativa de limpeza simbólica do trabalho convive, porém, com dados que contam uma história muito menos elegante. No Brasil, levantamentos recentes do Conselho Nacional de Justiça indicam que milhares de ações envolvendo assédio moral tramitam todos os anos na Justiça do Trabalho, enquanto relatórios do Ministério Público do Trabalho apontam crescimento consistente das denúncias de violência psicológica no ambiente laboral. Ao mesmo tempo, dados da Organização Internacional do Trabalho mostram que mais de um em cada cinco trabalhadores no mundo relata já ter sofrido algum tipo de violência ou assédio no trabalho. Essas estatísticas, que aparecem em relatórios técnicos e estudos institucionais, correspondem na prática a milhões de pequenas histórias de desgaste cotidiano que raramente aparecem nos vídeos institucionais sobre cultura organizacional.

Essa mesma cultura aparece nas lojas gigantescas que transformam o consumo em espetáculo permanente, nas vitrines iluminadas dos shoppings onde vendedores passam o dia inteiro em pé sob luz branca e música repetida, nas grandes redes varejistas que ocupam quarteirões inteiros com bandeiras tremulando e slogans patrióticos, nos corredores intermináveis de produtos empilhados onde trabalhadores são treinados para sorrir, bater meta, oferecer cartão, empurrar garantia estendida e convencer o cliente de que aquilo que ele não planejava comprar é exatamente o que precisa levar para casa. Ali também se fala muito em cultura: cultura de vendas, cultura de engajamento, cultura de encantamento. Tudo precisa parecer harmônico, organizado, limpo — inclusive o sofrimento de quem trabalha.

Mas a palavra cultura, nesses ambientes, costuma servir menos para descrever um ambiente humano do que para esconder um regime. Porque por trás da vitrine impecável existe o estoque abafado, o pé inchado depois de horas em pé, a garganta seca de quem repete frases de atendimento centenas de vezes por dia, o gerente que circula como fiscal permanente de humor e desempenho, a cobrança por ticket médio, conversão, abordagem, cadastro, disponibilidade emocional e estética.

A vendedora aprende rapidamente que seu corpo também será avaliado, não apenas sua produtividade. Aprende que há um jeito adequado de se arrumar, uma maquiagem compatível com a marca, um cabelo mais alinhado, uma forma correta de sorrir, falar e se mover diante do cliente. Aprende que alguns quilos a mais podem virar “feedback de imagem”, que a maternidade pode ser interpretada como queda de performance e que a recusa a convites inconvenientes de superiores pode se transformar em punição silenciosa — uma escala pior, um setor menos lucrativo, uma comissão menor.

Nos shoppings, a luz branca que ilumina as mercadorias também ajuda a disciplinar os corpos. O trabalhador não apenas vende: ele performa entusiasmo. Antes da abertura das lojas, equipes inteiras são convocadas a reuniões motivacionais onde precisam bater palmas, repetir palavras de ordem e demonstrar energia para o dia que começa.

Rankings exibidos em murais internos expõem quem vendeu menos, transformando o constrangimento em ferramenta pedagógica que ensina, sem necessidade de discursos longos, qual é o lugar reservado àquele que não consegue acompanhar o ritmo esperado. O funcionário gay aprende a ouvir comentários insinuando que talvez lhe falte “perfil” para determinados setores; a trabalhadora negra escuta observações sobre cabelo, aparência ou “apresentação”; a mulher gorda percebe que seu corpo se tornou assunto informal de corredor; a mãe que retorna da licença descobre que sua escala agora termina no horário exato em que a creche fecha. E, pouco a pouco, a cultura que se apresenta como pertencimento começa a revelar sua face disciplinar, porque aquilo que parece motivação coletiva muitas vezes funciona como pedagogia do medo, ensinando silenciosamente que quem não acompanha o ritmo da loja pode ser deslocado, isolado ou simplesmente substituído.

Esse regime de controle e exposição, entretanto, não pertence apenas ao varejo. Ele atravessa também os corredores dos supermercados, onde o trabalho passa a ser organizado por métricas aparentemente neutras — tempo médio de atendimento, número de produtos registrados por minuto, produtividade por setor, taxa de perdas — criando um ambiente em que cada gesto do trabalhador parece traduzível em números. O caixa aprende a mover as mãos sobre o leitor de código de barras com velocidade quase automática, porque cada segundo a mais pode aparecer nos relatórios de desempenho. O repositor aprende que a prateleira precisa estar organizada antes da próxima auditoria interna. E dentro desse universo de indicadores aparentemente objetivos, pequenas violências sociais continuam operando silenciosamente: a repositora gorda escuta comentários sobre agilidade, o operador negro percebe olhares de suspeita quando um produto desaparece do setor, a trabalhadora que retorna da licença-maternidade descobre que sua nova escala termina exatamente no horário em que a creche fecha.

Nada disso interrompe o funcionamento do supermercado. As prateleiras continuam sendo abastecidas, os caixas continuam registrando produtos, os clientes continuam empurrando carrinhos pelos corredores iluminados. Mas, acumuladas dia após dia, essas pequenas fraturas produzem algo que raramente aparece nos relatórios de desempenho: um ambiente em que o trabalhador aprende rapidamente que existe uma hierarquia invisível de dignidade, uma hierarquia que determina quem pode reclamar, quem precisa se calar e quem pode ser substituído sem causar grandes perturbações na engrenagem.

Nas linhas de produção industriais, a violência assume outra forma: o ritmo. O corpo humano precisa acompanhar o tempo da máquina, e a máquina não negocia. Cada gesto precisa caber dentro de segundos calculados. Levantar, encaixar, apertar, girar, empurrar, levantar novamente. Centenas ou milhares de vezes por turno. O trabalhador aprende a adaptar o corpo ao ritmo da linha de produção, e quando a dor aparece — no punho inflamado, no ombro endurecido, na coluna comprimida — raramente se pergunta o que o trabalho fez com aquele corpo. Pergunta-se o que aquele corpo fez para não suportar o trabalho.

Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho mostram que milhares de afastamentos previdenciários por lesões musculoesqueléticas estão ligados justamente a esse tipo de atividade repetitiva. Tendinites, bursites, compressões nervosas e dores crônicas passam a fazer parte da biografia laboral de muitos trabalhadores, mesmo quando o discurso empresarial insiste em apresentar o ambiente industrial como espaço de eficiência técnica e organização produtiva.

Nos frigoríficos brasileiros, essa lógica chega a extremos que foram amplamente documentados por inspeções do trabalho e pesquisas acadêmicas. Trabalhadores realizando dezenas de movimentos com faca por minuto, sob temperaturas muito baixas e com pausas extremamente curtas. Cortes nas mãos são frequentes. Inflamações nos tendões tornam-se crônicas. O frio constante das câmaras de processamento mistura-se ao cheiro metálico da carne e ao ruído contínuo das máquinas. Ainda assim, a linha não desacelera, porque a cadeia produtiva que conecta o abate ao mercado internacional depende de um fluxo contínuo que raramente admite interrupções.

Em diversos processos que chegaram à Justiça do Trabalho, trabalhadores de frigoríficos relataram jornadas intensas, ritmo de produção incompatível com os limites fisiológicos humanos e ambientes em que a dor física era tratada como parte natural do trabalho. Em algumas dessas decisões, tribunais reconheceram que a organização da produção em ritmo excessivo pode configurar violação à dignidade do trabalhador, justamente porque transforma o corpo humano em extensão da máquina.

Mas essa lógica de desgaste não se limita às fábricas ou aos frigoríficos. Ela atravessa também ambientes que, à primeira vista, parecem muito mais limpos.

Nos call centers, por exemplo, o trabalho raramente envolve peso físico ou esforço muscular intenso, mas isso não significa que o desgaste seja menor. Ali, a disciplina assume forma tecnológica. O trabalhador não vê o supervisor permanentemente, mas sabe que cada segundo da sua jornada está sendo monitorado por sistemas eletrônicos capazes de registrar cada movimento da sua atividade. Tempo médio de atendimento, tempo de pausa, número de chamadas resolvidas, índice de satisfação do cliente, taxa de conversão de vendas. Tudo vira dado. Tudo vira métrica. Tudo vira forma de vigilância.

O operador aprende rapidamente que o telefone não é apenas instrumento de trabalho: é também instrumento de controle.

Cada ligação atendida precisa seguir um roteiro preciso. Cada resposta precisa manter o tom cordial previsto no script. Mesmo quando o cliente grita, xinga ou ameaça, o trabalhador precisa responder com a cordialidade treinada nas sessões de capacitação corporativa. “Bom dia, em que posso ajudar?” — repete-se dezenas, às vezes centenas de vezes por turno. E, enquanto isso, o sistema registra cada segundo da chamada.

Pesquisas acadêmicas sobre o setor mostram índices elevados de ansiedade, depressão e síndrome de burnout entre operadores de telemarketing. Muitos relatam que, depois de algumas semanas de trabalho, passam a desenvolver uma reação física ao telefone tocando: o corpo entra em alerta antes mesmo de saber quem está do outro lado da linha. O toque do telefone deixa de ser apenas sinal de trabalho e passa a ser gatilho fisiológico de tensão.

Ainda assim, dentro da lógica organizacional dessas empresas, esse tipo de reação costuma ser interpretado como problema individual de adaptação. O operador que não suporta a pressão é substituído. O sistema continua funcionando.

Nos corredores silenciosos do trabalho de limpeza, a violência assume outra forma. Ali, o desgaste raramente aparece em relatórios ou indicadores de desempenho. Ele aparece no cotidiano.

A trabalhadora chega antes do amanhecer para lavar pisos de shoppings, escritórios ou hospitais e aprende rapidamente que o uniforme que veste funciona como marcador social. Enquanto outras pessoas circulam pelo prédio com crachás coloridos e roupas sociais, ela empurra carrinhos de produtos químicos e baldes de água. Muitas vezes trabalha em horários em que o prédio ainda está vazio, limpando os vestígios do dia anterior antes que o fluxo de pessoas comece novamente.

Há quem atravesse o chão recém-lavado deliberadamente, deixando pegadas de lama como se testasse a submissão de quem terá de limpar novamente. Há gerentes que se dirigem a essas mulheres sem aprender seus nomes, reduzindo pessoas a funções: “a moça da limpeza”, “a menina do banheiro”.

Quando essa trabalhadora é negra, surgem diminutivos racializados.Quando manifesta religiosidade de matriz africana, aparecem comentários sobre “macumba”. Quando seu corpo foge do padrão esperado, surgem piadas sobre peso ou aparência. A violência raramente explode em escândalo. Ela se infiltra no cotidiano.

Nas cozinhas industriais, a brutalidade assume outra tonalidade. O calor dos fogões mistura-se ao ritmo das comandas que se acumulam sobre a bancada metálica. Panelas batem contra superfícies de aço enquanto equipes tentam acompanhar o fluxo constante de pedidos. O erro vira grito. O atraso vira bronca pública. O cozinheiro que erra o ponto de um prato pode ouvir a reprimenda diante de toda a equipe, como se a exposição fosse parte natural da disciplina profissional.

Em muitos restaurantes e cozinhas industriais, o grito do chef é tratado como ferramenta legítima de gestão, quase como elemento cultural da profissão. Programas de televisão e narrativas romantizadas da gastronomia ajudaram a consolidar essa imagem do chefe exigente que conduz a cozinha pela intensidade do comando.

Mas, no cotidiano real de milhares de trabalhadores da alimentação coletiva — restaurantes industriais, cozinhas hospitalares, redes de fast-food — essa intensidade muitas vezes se traduz em jornadas prolongadas, pressão constante e um ambiente em que o erro se torna espetáculo público.

Ao observar esses ambientes — call centers, limpeza, cozinhas industriais — começa a surgir um padrão que atravessa setores muito diferentes entre si. Um padrão em que o desgaste humano não aparece como acidente ocasional, mas como elemento funcional da organização do trabalho.

Esse padrão aparece também nos bastidores de eventos, um universo que costuma permanecer invisível para o público que vê apenas o espetáculo final — o palco iluminado, o som perfeito, a música que começa exatamente no horário previsto. Antes que esse espetáculo aconteça, porém, existe uma cadeia inteira de trabalhadores que atravessa madrugadas carregando estruturas metálicas, montando sistemas de iluminação, organizando cabos, instalando caixas de som e erguendo palcos temporários que, muitas vezes, precisam estar prontos em poucas horas.

Esses trabalhadores chegam quando o público ainda está dormindo e muitas vezes saem quando o público já foi embora. Carregam estruturas pesadas, empurram equipamentos por corredores estreitos, desmontam cenários sob luz fraca depois que o evento termina. A jornada frequentemente atravessa a madrugada. O contrato muitas vezes é temporário. O pagamento pode depender de uma cadeia de intermediários que começa na produtora do evento e termina em pequenas equipes de montagem contratadas para aquele dia específico.

Nesse ambiente, a precariedade não aparece apenas como problema jurídico — ela aparece como forma de organização cotidiana do trabalho. O técnico estrangeiro vira piada de sotaque. O trabalhador negro é automaticamente associado à força física. A mulher que atua na produção aprende rapidamente que certos convites insistentes não são exatamente convites.

Nada disso aparece no espetáculo. Mas tudo isso sustenta o espetáculo.

Nas empresas de segurança privada, a lógica do desgaste assume outra dimensão. O vigilante permanece horas em pé, muitas vezes em portarias ou guaritas onde o fluxo de pessoas parece constante, mas onde o tempo também pode se arrastar lentamente entre uma ronda e outra. A responsabilidade é grande: observar movimentações suspeitas, controlar entradas e saídas, lidar com situações potencialmente perigosas. Ao mesmo tempo, a remuneração costuma ser modesta e a jornada frequentemente inclui turnos noturnos.

Quando o vigilante sofre um acidente ou desenvolve alguma limitação física, a reação do ambiente de trabalho nem sempre é a solidariedade. Em diferentes relatos que aparecem em processos judiciais, trabalhadores afastados por problemas de saúde voltam ao trabalho e encontram apelidos irônicos circulando entre colegas — “aposentado”, “encostado”, “encaminhado para o INSS”. A dor que deveria ser reconhecida como consequência de um trabalho arriscado passa a funcionar como marca de fraqueza dentro da própria categoria.

Nos serviços de saúde de urgência, a tensão assume contornos ainda mais complexos. Socorristas, enfermeiros, técnicos de enfermagem e condutores de ambulância convivem diariamente com sofrimento extremo. A fila de pacientes não pode parar. A sirene não pode esperar. O plantão atravessa a madrugada enquanto equipes lidam com emergências, acidentes, crises clínicas e situações em que o limite entre vida e morte pode depender de decisões tomadas em poucos segundos.

Esse tipo de trabalho exige não apenas conhecimento técnico, mas também resistência emocional. O profissional de saúde precisa lidar com dor, medo, desespero e perda enquanto continua executando procedimentos com precisão. Muitas vezes o próprio corpo já está exausto depois de horas de plantão, mas o atendimento precisa continuar.

Estudos sobre saúde ocupacional mostram índices elevados de burnout entre profissionais de enfermagem e equipes de emergência. Jornadas prolongadas, equipes reduzidas e estruturas hospitalares sobrecarregadas produzem ambientes em que o desgaste emocional se acumula silenciosamente. Ainda assim, a narrativa institucional sobre o setor costuma enfatizar vocação, missão, espírito de cuidado — palavras que, embora carreguem uma dimensão ética importante, também podem funcionar como forma de invisibilizar o custo humano desse trabalho.

Quando se observa esse mosaico de ambientes — varejo, supermercados, indústrias, frigoríficos, call centers, limpeza, cozinhas industriais, eventos, segurança privada, serviços de saúde — começa a emergir um padrão estrutural que atravessa setores muito diferentes entre si.

Um padrão em que a produtividade depende da capacidade de extrair não apenas trabalho físico, mas também resistência emocional. Um padrão em que o desgaste humano passa a funcionar como recurso econômico.

Entre todos esses ambientes, poucos revelam essa lógica de maneira tão silenciosa quanto o trabalho de cuidado. Cuidadores de idosos, pessoas com deficiência ou pacientes que perderam autonomia física levantam corpos pesados da cama, dão banho, trocam roupas, administram medicamentos e passam noites inteiras em vigília. O trabalho exige força física, atenção constante e uma disponibilidade emocional que raramente aparece nas descrições formais da profissão. Não se trata apenas de executar tarefas mecânicas. Trata-se de lidar diariamente com fragilidade, com dependência, com sofrimento humano que muitas vezes se estende por meses ou anos.

O cuidador aprende a mover o corpo de quem já não consegue se mover sozinho, aprende a reconhecer sinais de dor em alguém que já não consegue explicar o que sente, aprende a manter a calma quando a madrugada parece interminável e o cansaço começa a pesar sobre as pálpebras. E ainda assim, em grande parte das vezes, esse trabalho continua sendo tratado socialmente como extensão natural de virtudes pessoais — paciência, carinho, dedicação — como se fosse apenas expressão de uma disposição moral para cuidar do outro.

Quando o cuidado é apresentado apenas como vocação, o trabalho desaparece. E quando o trabalho desaparece, desaparece também o reconhecimento do desgaste de quem cuida.

Essa invisibilidade não é apenas simbólica. Ela tem consequências concretas. Muitos cuidadores trabalham jornadas prolongadas, às vezes em regime quase contínuo dentro da casa do próprio paciente, com pausas escassas e remuneração limitada. O corpo que levanta outro corpo todos os dias também começa a sentir o peso desse esforço repetido — dores na coluna, nos ombros, nas articulações. O desgaste emocional, por sua vez, aparece de maneira mais silenciosa: noites mal dormidas, ansiedade constante, sensação de responsabilidade permanente pela vida de outra pessoa.

Observados em conjunto, todos esses ambientes de trabalho — das vitrines luminosas dos shoppings às câmaras frias dos frigoríficos, dos corredores silenciosos da limpeza às centrais telefônicas dos call centers, das cozinhas industriais aos bastidores de eventos, das portarias de vigilância às ambulâncias de emergência, das casas onde cuidadores passam madrugadas em vigília — revelam algo que vai além de histórias individuais de conflito laboral.

Eles revelam um sistema. Um sistema em que a organização do trabalho depende, em diferentes graus, da capacidade de extrair produtividade a partir da resistência humana ao desgaste.

Nos últimos anos, dados da Previdência Social brasileira passaram a registrar um crescimento expressivo de afastamentos por transtornos mentais relacionados ao trabalho, incluindo depressão, ansiedade e síndrome de burnout. Ao mesmo tempo, levantamentos do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho indicam milhões de afastamentos previdenciários associados a doenças ocupacionais e acidentes laborais. Esses números aparecem em relatórios técnicos, planilhas estatísticas e estudos institucionais, mas por trás deles existem histórias concretas de corpos que chegaram ao limite.

Quando o direito do trabalho encontra essas histórias, ele tenta dar nome jurídico a experiências que, dentro das empresas, muitas vezes eram tratadas como rotina. Assédio moral. Assédio sexual. Discriminação. Racismo. Intolerância religiosa. Gestão por humilhação.

Nos autos judiciais, essas expressões aparecem como categorias técnicas. Mas por trás delas existe algo mais profundo: uma estrutura organizacional em que o desgaste humano se transforma em parte da engrenagem produtiva.

É nesse ponto que começa a fazer sentido falar em uma economia política do desgaste. Não apenas porque o trabalho produz desgaste — isso sempre fez parte da história do trabalho humano —, mas porque o desgaste passa a ser administrado, distribuído e absorvido como elemento funcional do sistema econômico.

Metas cada vez mais altas, ritmos de produção cada vez mais intensos, vigilância constante do desempenho e precarização de vínculos de trabalho criam ambientes em que a capacidade de suportar pressão se torna quase tão importante quanto a capacidade de executar tarefas.

O trabalhador aprende rapidamente que existe uma fronteira invisível entre indignação e sobrevivência. Aprende que certas violências precisam ser engolidas. Aprende que reclamar pode significar perder o emprego.Aprende que o silêncio, muitas vezes, é estratégia de sobrevivência.

Mas essa limpeza simbólica da cultura corporativa falha quando alguém decide narrar. Falha quando a trabalhadora resolve contar o que viveu.

Falha quando o empregado que foi chamado de macaco, de gorda, de negrinha, de viado, de doente, de histérica, de fraco, de problema, de macumbeiro, de estrangeiro inconveniente, de mãe descomprometida, de eleitor errado decide romper o arranjo de silêncio e dizer, com a sobriedade amarga de quem já suportou demais, que aquilo não era cobrança, não era cultura, não era brincadeira, não era excesso pontual.

Era violência. E quando a violência finalmente recebe nome, algo se desloca. Talvez não o suficiente para transformar imediatamente o mundo do trabalho, mas o suficiente para produzir uma fissura na narrativa dominante que insiste em tratar o sofrimento laboral como preço inevitável da eficiência econômica.

Porque cada narrativa que atravessa os autos da Justiça do Trabalho faz aparecer aquilo que a cultura corporativa tenta constantemente ocultar: o fato de que o funcionamento aparentemente limpo da economia depende, muitas vezes, da sujeira invisível da humilhação cotidiana.

Nesse momento, ainda que por um instante breve e imperfeito, o direito deixa de ser apenas protocolo. Pode voltar a ser trincheira.

Não uma trincheira capaz de curar sozinho aquilo que a estrutura inteira produz, mas uma trincheira capaz de interromper, ainda que momentaneamente, a mentira central do nosso tempo: a de que humilhar quem trabalha seria apenas parte normal do funcionamento das coisas.

 

 
 
 

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