A cidade acorda antes de você
- Janaína Vieira Nedochetko
- 6 de mar.
- 4 min de leitura
(Trabalho invisível, economia política do desgaste e reconhecimento jurídico)
por Janaína Vieira Nedochetko

Existe um momento do dia em que a cidade ainda não acordou, mas o trabalho que a sustenta já começou há muito tempo.
Antes que os ônibus estejam cheios, antes que as luzes dos escritórios se acendam e antes que as primeiras filas se formem nas padarias, existem pessoas que já atravessaram parte significativa de sua jornada de trabalho. A cidade ainda dorme, mas aquilo que garante o seu funcionamento cotidiano já está em movimento — silencioso, quase imperceptível para quem encontrará apenas os seus resultados ao longo do dia.
Enquanto muitos ainda descansam, alguém atravessa a madrugada caminhando entre portões, estacionamentos e galpões vazios, garantindo que patrimônios que não lhe pertencem permaneçam protegidos até o amanhecer. Em outro ponto da cidade, uma trabalhadora da limpeza termina de lavar corredores que, poucas horas depois, serão atravessados por centenas de pessoas que talvez jamais se perguntem quem limpou aquele chão antes do início do expediente. Em canteiros de obras que começam a ganhar movimento ainda antes do nascer do sol, trabalhadores iniciam mais uma jornada marcada por esforço físico intenso, repetido diariamente ao longo de anos.
Grande parte desse trabalho acontece fora do campo de visão das narrativas oficiais sobre economia, produtividade ou desenvolvimento.
Quando se fala em crescimento econômico, inovação tecnológica ou modernização produtiva, raramente se pensa nas mãos que carregam peso, nos corpos que suportam jornadas prolongadas ou nas trajetórias de trabalho construídas lentamente ao longo de décadas em atividades consideradas simples, substituíveis ou de baixa qualificação. No entanto, como demonstram diversos estudos da sociologia do trabalho contemporânea, a economia urbana depende profundamente de atividades que permanecem socialmente invisibilizadas, ainda que sejam absolutamente indispensáveis à reprodução cotidiana da vida social¹.
Sem esse trabalho, a cidade simplesmente não funciona. Hospitais não abrem suas portas, escolas não recebem alunos, supermercados não conseguem abastecer suas prateleiras e escritórios não iniciam suas atividades. Existe uma infraestrutura invisível de trabalho que antecede todas essas atividades e que torna possível aquilo que, mais tarde, será percebido como normalidade.
Essa infraestrutura invisível não é composta apenas por máquinas, prédios ou sistemas logísticos. Ela é composta, sobretudo, por corpos.
Corpos que carregam peso, caminham longas distâncias, permanecem em pé por horas, atravessam madrugadas de trabalho, suportam exposição a riscos e lidam diariamente com tarefas que exigem esforço físico intenso. Ao longo do tempo, esses corpos acumulam algo que raramente aparece nas narrativas sobre desenvolvimento econômico: desgaste.
Existe uma verdadeira economia política do desgaste atravessando silenciosamente o mundo do trabalho.
As transformações contemporâneas do capitalismo têm intensificado processos de precarização laboral que deslocam riscos e instabilidades para os próprios trabalhadores². Ao mesmo tempo, a fragilização das formas clássicas de proteção social produz aquilo que Robert Castel descreveu como zonas de vulnerabilidade social, nas quais trajetórias de trabalho passam a oscilar entre emprego instável, informalidade e insegurança estrutural³.
Nesse contexto, o desgaste do corpo trabalhador deixa de ser percebido como problema coletivo e passa a ser tratado como responsabilidade individual.
No entanto, como lembram autoras feministas e latino-americanas que analisam as transformações contemporâneas do trabalho, grande parte da reprodução cotidiana da vida social depende de atividades frequentemente invisibilizadas — muitas vezes femininas, precarizadas ou situadas nas margens das narrativas econômicas dominantes⁴.
Talvez seja por isso que tantas trajetórias laborais permaneçam invisíveis até o momento em que deixam de funcionar.
Quando o corpo já não responde da mesma forma, quando a idade chega ou quando a capacidade de trabalho se reduz, aquilo que durante décadas foi considerado apenas rotina começa a aparecer como problema jurídico. É nesse momento que muitos trabalhadores procuram o sistema previdenciário e descobrem que aquilo que sempre foi evidente na prática — uma vida inteira de trabalho — nem sempre é facilmente reconhecido pelos registros formais.
É assim que muitos processos previdenciários começam. Não apenas como discussões técnicas sobre tempo de contribuição ou cálculos administrativos, mas como tentativas de reconstruir juridicamente uma história de vida marcada pelo trabalho.
Por trás de cada processo existe algo que raramente aparece nos autos: o desgaste acumulado ao longo dos anos, a memória de jornadas repetidas diariamente e a expectativa de que o sistema de proteção social reconheça, ainda que tardiamente, aquilo que a própria vida já demonstrou.
É nesse ponto que a prática jurídica pode assumir um papel mais amplo.
No horizonte teórico desenvolvido em Corpos, Muros e Brechas, a advocacia aparece justamente como um espaço de reconstrução narrativa dessas trajetórias invisibilizadas, permitindo que histórias de trabalho frequentemente ausentes das estatísticas econômicas sejam apresentadas como parte de uma disputa mais ampla por reconhecimento social. Muitos desses processos, portanto, não são apenas disputas jurídicas. Eles são disputas por reconhecimento.
Reconhecimento de trajetórias de trabalho, de histórias de vida construídas lentamente ao longo de décadas e de corpos que sustentaram, muitas vezes em silêncio, o funcionamento cotidiano da cidade.
Porque, enquanto a cidade ainda dorme, o trabalho que a sustenta já começou. E muitas vezes é somente quando esse trabalho termina que começa a luta para que ele seja finalmente reconhecido.
Notas
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão.
ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho.
CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social.
FEDERICI, Silvia; GAGO, Verónica.




Comentários